Sexta-feira, 27 de Abril de 2007

Agosto da minha infância

 

 

Corria uma brisa suave e quente, num fim de tarde de Agosto.

O sol começava a subir o monte de São Silvestre, anunciando o fim da sesta e o princípio da labuta.

Começava-se a ouvir o chilrear dos passarinhos novamente, como que despertando para um novo dia.

As árvores começavam a movimentar-se levemente, como que atordoadas pelo calor dessa tarde.

Os regos da água começavam a ter som, um som refrescante no embate contra as pequenas pedras. A vida voltava.

Por entre as canas, de um verde amarelado do milho, ou das verdes ramadas, começava a vida.

Chapéus de palha apareciam; olhos esbugalhados de gente acabada de acordar, numa tarde quente de Verão. Fora tempo da sesta à sombra de tudo o que protegesse de um sol abrasador. Era, também, o fim da radionovela “Simplesmente Maria”. Hoje a Maria quase tinha beijado o Afonso, mas ficou-se pela intenção, como se quisesse dizer “ amanhã beijo-te”. As mulheres discutiam se iria ou não beijar o Afonso no dia seguinte.

-Se ela o beija é como as outras – dizia a tia Elisa, (vá-se lá saber quem eram as outras).

Nem tiveram tempo de concluir sobre o que iria acontecer no dia seguinte.

 O tio Elias já chamava, irritado pela demora da mulher para vigiar os regos.

 A água era uma dádiva. Não se podia perder gota. Agosto era sinónimo de seca.

_Já vou – gritou a tia Elisa.

_Que raio de homem este, nem se pode falar um bocadinho!

A minha mãe nada dizia. Nos seus pensamentos estava meu pai, lá longe, na procura do pão para a família; os olhos da minha mãe transmitiam a saudade e o querer que ele também ali estivesse e lhe gritasse:

“ _Alice acabou a sesta, anda trabalhar!”

Olhou para mim, sorriu, embora triste e continuou o seu caminho.

Para trás eu tinha deixado a tentativa de bater um novo recorde. Amanhã iria conseguir subir ao máximo o grande carvalho. Era uma árvore centenária, enorme, imponente, que vivia sobre o muro que separava o campo de milho e o souto, onde as mulheres passavam estas tardes quentes a lavar na poça do souto. Enquanto isso, eu e meu irmão corríamos carreiro abaixo, descalços e embalados pela corrida, tentávamos subir ao máximo o castanheiro. Tinha uma cavidade onde eu me metia, onde eu sonhava maravilhado com a linda paisagem da minha aldeia e mais ao longe Mesão Frio.

Minha mãe caminhava com a bacia de roupa à cabeça, eu e o meu irmão seguíamos os seus passos, esperando por ordens. O melhor que me podia calhar era ir regar, o pior era a redra da vinha ou o apanhar feijão no meio do milho. Como detestava isso! As folhas do milho cortavam-me a cara, e com o suor, a comichão invadia-me , o pó da vinha entrava-me no corpo como lâminas.O que eu gostava mesmo era de regar. Gostava do barulho da água, da sua frescura e do cheiro da terra queimada que deixava pelos regos ainda secos. Descalço corria pelos regos acima e abaixo para não perder gota. Deixava-a deslizar suavemente pela horta, pelo milho, por todo o verde que, sequioso, me pedia água.

 Como eu entendia a linguagem das plantas!

_A “meio tufe” – gritava minha mãe de longe - poupa-me a água!

Um dia descobri no meio do milho uma zona muito húmida. Peguei na enxada e escavei. Quanto mais escavava mais húmido ficava.

- Como é possível? -pensava eu.

A poucos metros de profundidade a água brotava. Que alegria! Porém, depois, entrei em pânico… tinha destruído o milho. Já sabia: uma coça era o meu destino.

 Minha mãe aproximou-se, todo o meu corpo tremia. O milho seria a testemunha do meu azar.

Mas não! Minha mãe pegou em mim e beijou-me:

_ Meu filho que maravilha! Esta água vai ser a nossa salvação!

 E foi. Um poço com poucos metros e água pura para beber e regar.

 A partir desse dia comecei a ter frigorífico. Um frigorífico natural, sempre era melhor que a velha mina. Sempre tive medo de ir ao fundo dela buscar água fresca ou colocar o vinho para refrescar para o jantar.

Hoje o poço ainda lá está. O castanheiro, esse, morreu. Mataram-no. Trocaram-no por meia dúzia de cepas de vinha. Com ele morreu um pouco de mim. Mas quem liga a isso?

 

 

 

publicado por templum às 23:02
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1 comentário:
De Anónimo a 28 de Abril de 2007 às 00:14
Memórias com vida...
Sentem-se os cheiros , as cores, os lamentos, tristezas e vitórias.
Parabéns

Simplesmente
M.Rosa P.

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